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Professor, cidadão exemplar, antigo funcionário do Ministério da Educação, homem de cultura e de diálogo, Ruy Belo (1933-1978) é um dos poetas marcantes deste século com uma obra de referência na literatura portuguesa contemporâ- nea quer pelos temas que abordou quer pelos caminhos inovadores que trilhou com inspiração, inteligência, sabedoria e sentido de modernidade, usando as potencialidades da língua para exprimir os sinais dos tempos e o sentido poético da vida quotidiana. |
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Ruy
de Moura Belo nasceu
na pequena aldeia de São João da Ribeira, no
concelho de Rio Maior. Licenciou-se em Direito e, posteriormente, em
Filologia Românica. Fez o doutoramento em Direito
Canónico pela Universidade Gregoriana de Roma com a tese Ficção
Literária e Censura Eclesiástica.
Entre 1958 e 1961 desempenhou as funções de
director literário da Editorial Aster e chefe de
redacção da Revista Rumo. Em
1960, exerceu no Ministério da
Educação Nacional o cargo de adjunto do director
do Serviço de Escolha de Livros, ao qual veio a suceder como
director.
O ano de 1961 revelou-se decisivo para Ruy Belo. Ingressou na Faculdade
de Letras da Universidade de Lisboa, como bolseiro da
Fundação Calouste Gulbenkian. Aí, foi
aluno, entre outros, de Maria de Lurdes Belchior e Luís
Filipe Lindley Cintra, com quem estabeleceu uma forte
relação de amizade. Nesse ano, publicou a sua
primeira obra poética Aquele Grande Rio Eufrates
que, conjuntamente com a obra Colher na Boca, de
Herberto Helder, marcou uma viragem na moderna poesia portuguesa.
Em 1962, foi publicado O Problema da
Habitação – Alguns Aspectos,
cujo tema foi abordado por outros escritores. Posteriormente, numa
cadência regular, deu-nos Boca Bilingue
(1966), Homem de Palavra(s) (1969), Transporte
no Tempo e País Possível (1973), A
Margem da Alegria (1974) e Toda a Terra (1976).
Durante esse período traduziu diversos autores, de que se
destacam Saint-Exupéry, Blaise Cendras, Raymond Aron e Jorge
Luís Borges. Em 1969, publicou o volume de ensaios e
crítica literária Na Senda da Poesia.
A partir de 1975 e até 1977 exerceu o cargo de leitor de
Português na Universidade de Madrid, após lhe ter
sido vedada a carreira universitária que desejava e
claramente merecia.
A sua formação católica conduziu-o a
uma «consciência do colectivo empenhado, combatente
e consciente dos graus de esmagamento do homem», segundo
Joaquim Manuel Magalhães, levou-o a intervir politicamente
de forma directa, através da candidatura a deputado pela
CEUD em 1968, como fundador da SEDES (1969) e, sobretudo,
através da sua escrita que, nunca sendo
panfletária, esteve sempre atenta às grandes
questões sociais e políticas, com
«imersão no mundo dos outros».
O seu último título poético, Despeço-Me
da Terra da Alegria (1976), trouxe já a
premunição do fim próximo, que veio a
ocorrer na sua casa do Monte Abraão, em Queluz. Com o
desaparecimento do poeta, Portugal perdeu um dos »casos
maiores da poesia portuguesa contemporânea», no
dizer da professora Maria de Lurdes Belchior, e um homem
«justo, bondoso, sincero, puro», na
expressão do Professor Luís Filipe Lindley
Cintra.
«Vivemos convivemos resistimos/cruzámo-nos nas
ruas sobra as árvores/... Vivemos convivemos resistimos/sem
saber que em tudo um pouco nós morremos» - assim
era o poeta, na força da sua generosidade e da sua
fraternidade, sempre atento ao «Sinal deste
silêncio que não permite/desistir de cantar
enquanto vivo...».
Pedagogo, antes de tudo, Ruy Belo deixou
recordações da sua humanidade que têm
de ser lembradas. E sobre as crianças disse:
«Senhor que a minha vida seja permitir a
infância/Embora nunca mais eu saiba como ela se
diz...».
Portugal Futuro
O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e lhe chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças
dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro
in “Homem de
Palavra[s]”, 1969, de Ruy Belo
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